Negociar com margem: como funciona e como devo fazê-lo?

⏱️ Tempo estimado de leitura: 12 minutos

Para comprar uma casa, muitas vezes é necessário pedir um empréstimo ao banco para aumentar o seu poder de compra e ter fundos suficientes. Mas, sabia que pode fazer o mesmo quando investe no mercado de ações? É verdade! E a taxas de juro mais baixas. De facto, negociar com margem pode ser uma ferramenta poderosa que lhe oferece flexibilidade para alavancar a sua posição e, desta forma, capitalizar em certas oportunidades do mercado.

Parece ótimo, certo? Então, aqui está a verdadeira história: investir com margem não é para todos nem para ser usado em todas as circunstâncias. Esta estratégia permite aos investidores com um carisma mais agressivo (mais propensos ao risco) comprar mais ações do que poderiam, mas, em contrapartida, envolve um grande risco. Se não proceder com precaução e souber como usar esta ferramenta pode, inclusivamente, perder mais dinheiro do que o que investiu num curto espaço de tempo.

Portanto, a primeira pergunta que deve fazer a si mesmo é: “Considerando os meus objetivos, será uma boa ideia investir com margem?”. Se sim, o segredo é saber para quê e quando usar margem e, ainda mais importante, seguir uma estratégia rígida.

À primeira vista, pode parecer-lhe demasiado complexo e arriscado, mas, ao longo do artigo, iremos ajudá-lo a perceber como funciona este mecanismo e também dar-lhe dicas para negociar com margem ao mesmo tempo que protege o seu investimento.

O que é negociar com margem?

Na sua forma mais simples, comprar com margem é uma ferramenta que lhe permite comprar títulos utilizando, em parte, um empréstimo de fundos fornecidos por terceiros (por exemplo, um banco ou corretora). Tal como com qualquer outro empréstimo, será necessário pagar os  juros devidos periodicamente (estas taxas de juro são tipicamente mais baixas do que as associadas a um empréstimo normal) e, na data em que as posições do investidor forem fechadas, será necessário pagar o montante total do empréstimo. 

Todos os títulos incluídos na conta margem servirão de garantia para a entidade financeira, como medida de proteção contra o risco de crédito que o investidor cria ao pedir capital emprestado. No caso de o investidor não cumprir com os requisitos definidos (que irão ser mencionados na próxima secção), a entidade financeira tem o direito de vender parte ou a totalidade dos seus investimentos.

Normalmente, as entidades financeiras e governamentais fixam a percentagem máxima do valor dos títulos que pode ser emprestado nos 50%. Sublinhamos que esta é uma percentagem máxima e, portanto, o investidor não é obrigado a pedir a totalidade dos fundos a que tem direito (pode pedir 25% ou 35%, por exemplo). Desta forma, consegue alavancar a sua posição ao comprar ações por apenas uma fração (margem) do seu valor atual.

Esta margem é paga em dinheiro ou em títulos. No entanto, neste último caso, estes devem ser títulos devidamente elegíveis pela corretora ou banco, de acordo com um certo valor máximo definido e ponderado por uma certa percentagem definida. 

Assim, a capacidade de amplificar os resultados torna este instrumento bastante atrativo em comparação com um conta standard em que apenas utiliza o seu próprio dinheiro. Mas recorde-se: se o investimento não correr como planeado, também as suas perdas serão amplificadas e, legalmente, estará comprometido a pagar o empréstimo de volta.  

Imaginemos o seguinte exemplo:

Fonte: Adaptado de interactivebrokers.com

Observamos, neste caso, que a conta do investidor é composta por montantes iguais de fundos próprios e fundos de terceiros, o que lhe permitiu duplicar o número de ações que poderia comprar e, assim, alavancar a sua posição. No entanto, vemos, claramente, que se o preço dessas mesmas ações decrescer de 40 euros para 35 euros, o investidor perde 500 euros [100 ações x (35-40)], o dobro do que perderia sem alavancagem.

Como funciona?

Para negociar com margem, o primeiro passo a dar é abrir, junto da sua corretora ou banco, uma conta margem. Esta conta tem um valor mínimo para abertura (designado de margem inicial), que costuma corresponder a, pelo menos, 50% do valor total de investimento. Por exemplo, o Banco de Investimento Global permite a abertura de uma conta margem a clientes que tenham 10.000 euros em valores elegíveis.

Este tipo de conta diferencia-se das que costuma abrir normalmente quando começa a investir, tanto na forma de financiamento da compra de ativos (como já foi mencionado acima), como também no mecanismo que decorre enquanto mantém a conta aberta. 

Após realizar o depósito inicial, o balanço da sua conta será ajustado diariamente: os ganhos irão aumentar o balanço e as perdas irão diminuí-lo. Outro requisito definido é a margem de manutenção, que determina o montante de capital que o investidor deve manter, no mínimo, na sua conta margem. Normalmente, esta margem corresponde a 25% do valor total do investimento. 

Tanto a margem inicial como a margem de manutenção podem variar entre corretoras ou bancos, dependendo de fatores como, por exemplo, a volatilidade do preço dos seus títulos, e são revistos quando necessário.

Sempre que o balanço da sua conta estiver abaixo da margem de manutenção, irá receber o que é designado por chamada de margem, que pode ser sob a forma de um telefonema ou email, para recuperar os fundos necessários de forma a atingir novamente a margem de manutenção (a diferença é chamada de margem de variação). Se o investidor não possuir fundos suficientes para cobrir esta margem, todas as suas posições irão ser liquidadas pela entidade financeira.

De facto, este mecanismo de supervisão do balanço da conta é crucial para reduzir drasticamente a probabilidade de que o investidor entre em moratória. Ao controlar as perdas com a margem de manutenção, não se espera até ao final para se chegar à conclusão de que o investidor não tem fundos suficientes e, assim, contribui para que o investidor não entre em moratória. 

Um exemplo

Para efeitos de ilustração, imaginemos o seguinte exemplo onde o investidor XYZ abre uma conta margem no dia 11 de janeiro. O investidor deposita uma margem inicial de 10 mil euros e pede um empréstimo no mesmo montante, o que totaliza um investimento de 20 mil euros. Desta forma, utiliza os seus fundos para comprar 400 ações da empresa ABC. A margem de manutenção acordada foi de 25%, ou seja, 5 mil euros.

Desde o dia 11 até dia 20 de janeiro, as ações da empresa ABC sofreram uma desvalorização. No dia seguinte, o preço voltou a descer para o valor de 10 euros, o que implica que o balanço da conta margem decresceu para os 4 mil euros (400 ações x 10 euros). 

Nesse mesmo dia, o investidor XYZ recebe uma chamada de margem da corretora para repor o capital necessário para cumprir com a margem de manutenção (neste caso, mil euros de margem de variação). O investidor cumpre com o requisito da corretora e continua com a sua conta aberta, sendo que as ações da empresa voltaram a apreciar o seu valor.

Este exemplo é meramente ilustrativo, de forma a que perceba melhor como funciona a margem de manutenção e respetivas chamadas de margem.

Quais são as vantagens de negociar com margem?

Para além da já tão mencionada vantagem de alavancagem da posição nos seus investimentos, negociar com margem dá-lhe uma variedade de oportunidades para atingir os seus objetivos:

  • Flexibilidade – negociar com margem é especialmente importante quando pretende aproveitar as oportunidades de mercado que surgem de movimentações de curto prazo, e não possui fundos suficientes para o fazer sem recorrer a terceiros. A conta margem também lhe permite reequilibrar o seu portfólio com facilidade e sempre que desejar, desde que mantenha o mínimo de capital requerido.
  • Diversificação de portfólio – se apenas recorrer a fundos próprios, talvez apenas consiga construir um portfólio muito concentrado. No entanto, um dos princípios mais importantes a ter em mente quando se investe é a diversificação do portfólio. Usar margem nos seus investimentos irá permitir-lhe comprar-lhe outros títulos e outras classes de ativos que o irão ajudar a diversificar o risco.
  • Conveniência e utilidade – assim que o seu banco ou corretora verifique que cumpre todos os requisitos para a abertura de uma conta margem e que proceda a ativá-la, poderá pedir mais dinheiro emprestado sempre que seja necessário, sem ter que passar por mais nenhuma aprovação ou papelada (mas, claro, sujeito a todas as restrições e requerimentos em termos de capital). Portanto, a conta margem representa uma linha de crédito que está sempre ativa. Para além disto, desde que mantenha o mínimo de capital na conta, não existe uma data definida para o pagamento do empréstimo à entidade financeira.
  • Taxas de juro competitivas – Como já foi referido anteriormente, as taxas de juro são mais baixas quando se pede um empréstimo numa conta margem e, portanto, é mais eficiente em termos de custos quando comparado ao uso de crédito dos bancos.
  • Em alguns casos, os juros podem ser fiscalmente dedutíveis
  • Os títulos incluídos na conta margem servem como garantia – desta forma, o investidor não necessita de possuir outros ativos para usar como garantia do empréstimo à entidade financeira.

Quais são os riscos de utilizar esta estratégia?

Sabendo agora o que é negociar com margem e como funciona, é fácil imaginar um cenário em que as perdas são amplificadas, ao ponto de perder mais dinheiro do que inicialmente deposita na sua conta margem. Para além do mais, poderá pensar que, por estar a negociar com uma corretora e não um banco, será mais fácil de lidar no caso de algo correr mal. Mas engana-se. O empréstimo das corretoras é tão vinculativo como o dos bancos. 

No entanto, estes não são os únicos riscos associados:

Rehypothecation risk

Rehypothecation é uma prática utilizada pelos bancos e corretoras, segundo a qual estes recorrem aos ativos considerados como garantia do empréstimo pelos clientes para financiar outros empréstimos, transações e investimentos. Portanto, abrindo uma conta margem, a sua corretora irá utilizar os seus ativos para financiar outros investidores para, por sua vez, abrirem a sua conta. Quando a mesma garantia é utilizada para múltiplas transações, várias pessoas estão ligadas à mesma “cadeia de garantias”. Claro que, num mundo perfeito (em que ninguém falha com o pagamento do empréstimo), isto não representa nenhuma ameaça. No entanto, representa uma fragilidade para os mercados financeiros, já que uma falha pode gerar um efeito dominó que afeta mais pessoas do que apenas as duas envolvidas nessa única transação.

Problemas económicos

Para além do rehypothecation risk, existe um outro fator que introduz fragilidade à economia. De facto, em tempos de prosperidade, a margem de manutenção é mantida a níveis demasiado baixos, isto é, as entidades financeiras emprestam, proporcionalmente, um excesso de dinheiro contra um nível reduzido de garantias. Isto é ótimo para os investidores já que conseguem ainda alavancar mais a sua posição, mas, quando o mercado sofre uma queda, começam as chamadas de margem e os investidores não conseguem cumprir com os requisitos. Esta situação foi exatamente o que aconteceu na Grande Depressão. Antes da crise, os requisitos de manutenção eram apenas de 10%, ou seja, por cada 9 dólares de empréstimo, os investidores tinham de depositar 1 dólar. Aquando de uma quebra do mercado de ações, começaram a chover chamadas de margem e, os investidores que detinham a maioria do seu portfólio neste ativo, não conseguiram cumprir com os requisitos de capital. Ora, como solução, as entidades financeiras começaram a vender os títulos para pagar os empréstimos, o que criou um ciclo que teve como consequência uma completa quebra do mercado e, em última instância, a crise de 1929.

Risco de manutenção

Tanto as entidades financeiras como governamentais podem alterar, com uma certa facilidade, o requisito para a margem de manutenção. Adicionalmente, as perigosas flutuações de mercado de curto prazo podem, a qualquer momento, colocar o valor dos seus títulos abaixo do que é requerido pela entidade financeira. 

A consequência será, como já foi mencionado, uma chamada de margem que requer o aumento de capital na conta para o nível mínimo. Se o investidor não possuir os fundos necessários, então a entidade procede à liquidação dos seus ativos. Desta forma, será improvável que consiga deter um conjunto de ações em queda e esperar que o mercado recupere o valor. Nesse momento, as suas posições já terão sido liquidadas.

Para além disto, a liquidação dos títulos significa que ficará sujeito ao pagamento de impostos. Isto é especialmente importante para países como os Estados Unidos da América, onde a tributação é mais alta em mais-valias de curto prazo. O investidor não tem o direito de escolher os títulos que irão ser liquidados e, portanto, a corretora poderá vender títulos sobre os quais o investidor terá de se encarregar a pagar impostos mais altos.

Portanto, sentir o receio de receber esta chamada de margem é uma reação perfeitamente natural.

Os termos do contrato podem “engolir” os seus retornos

De forma similar a qualquer outro contrato de empréstimo, o investimento só estará a seu favor se conseguir usar os ativos de maneira a produzir retornos superiores à taxa de juro que está associada ao montante de empréstimo. Assim, avaliar a taxa de juro contratada e os possíveis retornos do portfólio deve ser uma preocupação do investidor.

7 dicas para negociar com margem

Continuamos a sublinhar o alto risco envolvido e, principalmente, a possibilidade de perder mais dinheiro do que o que inicialmente deposita, como as razões principais para avaliar cuidadosamente a sua opção de investir com margem. 

De forma a utilizar a margem com sucesso, devem-se aplicar regularmente certas práticas e estabelecer vários limites para que possa controlar o risco a que está exposto. Assim, apresentamos, em seguida, 7 dicas para que possa alcançar os seus objetivos de investimento, enquanto utiliza esta ferramenta:

  1. Invista com prudência e responsabilidade

Inicialmente, deve refletir se investir com margem é uma estratégia alinhada com os seus objetivos de investimento. Provavelmente não deve querer usar margem para fundos que planeia usar para a reforma ou como entrada para a compra de uma casa. 

Também deve considerar quais são os ativos que são adequados para comprar com margem. Neste caso, estratégias de curto prazo são recomendadas mas deve apenas considerar, por exemplo, empresas com bons valores fundamentais e que apresentem um histórico de alto crescimento, e não ações com um hype momentâneo. 

Para além disto, deve manter, num fundo de emergência, dinheiro suficiente para cobrir uma possível chamada de margem.

  1. Alavanque a sua posição, mas não até ao limite

Com isto pretendemos dizer que não deve pedir o montante máximo de empréstimo permitido pela entidade financeira, para que deixe alguma margem para possíveis flutuações desfavoráveis de mercado de curto prazo. Apenas quando estiver muito confiante sobre uma certa oportunidade de mercado, que pretende aproveitar, deve expandir o montante de empréstimo.

  1. Negoceie com margem para estratégias de curto prazo

Os profissionais recomendam usar margem apenas para estratégias de curto prazo (entre 1 e 2 meses) para que não esteja demasiado tempo exposto a correções ou quebras de mercado e para que consiga capitalizar as oportunidades de curto prazo, enquanto que mantém os juros ao nível mínimo (recorde-se que, com o tempo, os juros referentes ao montante do empréstimo acumulam-se e decrescem significativamente o seu retorno líquido).

  1. Diversifique o seu portfólio

Aproveite os fundos adicionais fornecidos por terceiros para diversificar o seu portfólio e não para reforçar as posições já abertas, pois manterá um portfólio demasiado concentrado. Diversificar é especialmente importante quando se investe com margem, já que uma descida abrupta do preço de um título poderá acionar a chamada de margem.

  1. Desenvolva uma estratégia e considere a sua tolerância ao risco

Desenvolver e manter-se fiel, em qualquer circunstância, a uma certa estratégia é crucial para investimentos que envolvem este grau de risco. Esta dica aplica-se tanto a ganhos como também a perdas. Por um lado, deve definir um preço limite de apreciação dos títulos, para os vender, realizar as mais-valias e evitar ser ganancioso. 

Por outro lado, deve manter-se fiel ao seu limite inferior para vender o ativo. Um dos erros mais cometidos pelos investidores é recusar-se a aceitar uma perda e manter um ativo em queda durante demasiado tempo. Uma restrição importante a definir é uma margem de manutenção superior à requerida pela entidade financeira (por exemplo, nos 30%), de forma a evitar as tão temidas chamadas de margem. Se for mais avesso ao risco, poderá ainda considerar uma restrição ainda maior de acordo com o que considera tolerante para eventuais perdas que possa sofrer.

  1. Esteja atento ao mercado

Especialmente durante tempos de incerteza no mercado, deve estar atento às notícias referentes à economia em geral e específicas aos títulos que possui, para se antecipar a possíveis quebras. 

  1. Primeiro, teste as águas

Para começar a investir com margem, faça-o com apenas 2 ou 3 títulos. Desta maneira, irá experienciar em pequena escala os benefícios e riscos desta estratégia, para depois aplicar o que aprendeu a investimentos de maior dimensão.

DEIXA UM COMENTÁRIO

Por favor, envie o comentário!
Por favor, escreva o seu nome aqui

Última notícias

Artigos Relacionados

spot_imgspot_img