Estaremos numa bolha económica agora?

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Uma bolha económica é um termo comum usado para descrever o ciclo económico, que se inicia por uma expansão seguida de uma contração, algumas vezes terminando numa grave recessão económica.

Para o investidor, é importante ter um conhecimento aprofundado sobre o funcionamento destes cíclicos, dado que, se investir na altura errada, poderá sofrer perdas avultadas. Iremos, então, explicar-lhe tudo sobre bolhas económicas e como investir na presença de uma, para que possa proteger o seu dinheiro.

A bolha económica e a influência do ser humano

Uma bolha económica é um fenómeno dos mercados financeiros caracterizado por um crescimento dos preços dos ativos, num curto espaço de tempo, para um nível que não é, de qualquer maneira, justificado pelo valor fundamental desses ativos. Normalmente, ocorre numa fase mais avançada do ciclo económico, após um certo período de prosperidade. 

A natureza humana e o seu comportamento irracional como investidores nos mercados financeiros estão inteiramente relacionados com a criação de uma bolha. De facto, o excesso de confiança é uma característica comum a todos os humanos (referido, em inglês, como psychological bias), o que, no mundo financeiro, se traduz nos investidores revelarem uma forte convicção de que o preço do ativo irá continuar a subir, independentemente de este estar alinhado com o seu valor intrínseco. 

Outra característica humana é o herding behaviour, isto é, as pessoas deixam-se influenciar pelas opiniões e decisões de outros indivíduos no nosso próprio processo de tomada de decisão e, portanto, tendemos a copiar comportamentos, mesmo quando possuímos informação que indique que devemos fazer o contrário. Nos mercados financeiros, os investidores, mesmo sabendo que o mercado está inflacionado, seguem a tendência de investimento no ativo cujo preço está a subir.

Desta forma, combinando estas duas características e a ganância do investidor por qualquer oportunidade de lucro que apareça no mercado, cria-se uma bolha. Tipicamente, uma bolha ocorre no mercado de ações, mas também já se formou em outros mercados como o  imobiliário, ou, mais recentemente, o das criptomoedas.

No entanto, esta rápida inflação de preços é seguida por uma queda abruta, onde se diz que a bolha rebentou. O sentimento de otimismo torna-se em pânico, levando os investidores a vender os seus ativos e, por isso, o preço dos ativos decresce subitamente, muitas vezes para valores abaixo da sua avaliação fundamental. Como consequência, há uma contração da economia em geral.

Devido às constantes discrepâncias de opiniões quanto ao valor fundamental de um ativo, é difícil de detetar quando nos encontramos dentro de uma bolha, até esta rebentar. Neste momento,  temos a certeza que nos encontrávamos numa. 

As possíveis causas da criação de uma bolha

Ao longo dos anos, as causas da criação de uma bolha têm sido bastante disputadas pelos economistas. Atualmente, ainda não existe um consenso, mas aponta-se a excessiva liquidez na economia como a causa mais plausível. Existem três condições principais que contribuem para o comportamento irracional do ser humano e, consequentemente, para a inflação dos preços:

  • Taxas de juro baixas – as políticas monetárias, estabelecidas para estimular a economia, injetam demasiada liquidez no mercado e, como consequência, as taxas de juro decrescem. Com taxas de juro baixas, os bancos aliviam as condições de empréstimo e o grau de restritividade de acesso a crédito e, portanto, pedir um empréstimo ao banco torna-se mais flexível e barato. Desta forma, os investidores tendem a alavancar a sua posição para investir em ativos, aumentando a sua procura.
  • Aumento da procura – para além do excesso de confiança e herding behaviour, já mencionados anteriormente, vários comportamentos irracionais do ser humano são fatores significativos para justificar o aumento da procura. As pessoas tendem a tomar decisões tendo em conta o curto prazo, ao invés de um pensamento de longo prazo e, associado a isto, analisam o estado da economia com base em apenas informação recente. Além disso, o seu excesso de confiança leva-as a filtrar apenas a informação coerente com as suas crenças e a pensar que conseguirão ter uma melhor performance que o mercado e sair antes que a bolha rebente. Todos estes fatores induzem os investidores a avaliar erradamente a situação do mercado e a contribuir para a sua inflação.
  • Escassez de ativos – o facto de existir um número limitado de ativos tem duas consequências. Evidentemente, a primeira é que o preço dos ativos irá crescer, resultante da acentuada procura. A segunda é que, com taxas de juro baixas, os investidores não têm capacidade para receberem bons retornos, então movem o seu capital para ativos mais arriscados. 

As 5 fases de uma bolha

Os economistas Hyman P. Minsky e Charles Kindleberger identificaram 5 fases cruciais na criação de uma bolha. No gráfico, pode observar as fases que constituíram a famosa bolha dotcom dos anos 90.  

Fonte: caixabankresearch.com
  1. Mudança (Initial Displacement)

Geralmente, o início desta fase está associado a um novo paradigma, como uma tecnologia inovadora ou taxas de juro muito baixas, que cria novas oportunidades de lucro e, portanto, capta o interesse dos investidores.

Normalmente, nesta fase inicial, apenas aplicam o seu capital nesta classe de ativos os investidores “smart money”  que têm acesso a informação privilegiada e uma melhor capacidade para entender o contexto económico, assim como o potencial de apreciação desta nova oportunidade de lucro.

Deste modo, os preços iniciam o seu crescimento, mas de uma forma muito gradual, sem captar a atenção da sociedade.  

  1. Boom (Boom)

Nesta fase, cria-se uma pressão contínua para a subida dos preços (momentum), dado que  cada vez mais participantes colocam enormes montantes de capital nesta classe de ativos. Ocasionalmente, poderão também ocorrer curtas quedas no preço, já que alguns investidores aproveitam para realizar lucros rápidos, mas sempre a preços mais elevados.

Além disso, este novo paradigma começa a captar a atenção da imprensa e, como consequência, a sociedade começa a sentir o efeito FOMO (Fear Of Missing Out), isto é, sentem o medo de estar a perder a oportunidade, o que induz a sociedade a investir em pura especulação.

Do ponto de vista das instituições financeiras, também aproveitam este momento de otimismo para fazer dinheiro ao oferecer empréstimos aos investidores com um alívio das suas condições.

  1. Euforia (Euphoria)

Neste momento, todas as pessoas estão cientes de que os preços estão a escalar para valorizações extremas, para além do que é possível ser justificado pelo valor intrínseco do ativo.

No entanto, uma característica bastante evidente desta fase é o facto de que, independentemente do nível de preços, irá sempre haver um investidor mais otimista disposto a pagar por um preço mais alto. Isto acontece porque novos métodos de avaliação e métricas são usados para tentar justificar o crescimento exponencial, o sentimento de FOMO continua a estar presente, os preços futuros são extrapolados dos preços mais recentes e, devido à contínua entrada de capital no mercado, criam-se expectativas ainda mais otimistas para o futuro. 

Evidentemente, nesta fase, a bolha é bastante influenciada pela psicologia do ser humano e será tanto maior quanto maior for a quantidade de capital que os bancos disponibilizam aos seus clientes.

  1. Tomada de lucro (Profit-taking)

Os investidores “smart money” tomam precauções em relação aos sinais perigosos de que a bolha possa estar prestes a rebentar e, como tal, começam a vender as suas posições e a realizar lucros.

  1. Pânico (Panic)

É muito difícil prever quando a bolha vai rebentar, mas, eventualmente, irá acontecer e é apenas necessário um pequeno acontecimento para que toda a gente se aperceba que a situação mudou e para que se gere o pânico. 

De facto, nesta fase, as expectativas e confiança no ativo são totalmente opostas, os preços decrescem a um ritmo tão rápido como cresceram, investidores recebem chamadas de margem e as empresas estão repletas de dívidas e não conseguem recorrer a mais financiamento pelos bancos.

Os mais afetados pela bolha são os investidores que chegaram em último lugar, já que apenas vêem os seus ativos a depreciar. Futuramente, as pessoas ficam reticentes em investir em novos paradigmas, já que consideram este como o pior investimento que alguma vez realizaram.

As grandes bolhas da história da economia

Nesta secção, apresentamos-lhe as 5 bolhas que são consideradas como as piores da história da economia.

A bolha das tulipas

Conhecida por “Tulipomania”, a bolha especulativa ocorreu nos Países Baixos, na década de 1630, e é considerada a primeira da qual se tem registo. 

Neste período, dada a crescente euforia da sociedade com as túlipas exóticas, o seu preço cresceu exponencialmente para níveis tão excessivos, que, por vezes, vender a sua casa não bastaria para comprar uma túlipa.

Evidentemente, assim que o interesse por túlipas diminuiu, as túlipas desvalorizaram 99% e a economia holandesa quebrou.

A bolha dos Mares do Sul

Com uma complexidade superior à bolha das tulipas, no início do século XVIII, foi criada uma bolha pela Companhia dos Mares do Sul, cujo monopólio do comércio com as colónias espanholas da América do Sul foi prometido pelo governo Britânico.

As pessoas, com promessas e rumores da Companhia sobre o seu sucesso, começaram a comprar unidades de participação e a alavancar a sua posição na empresa. O resultado foi o aumento do valor das suas ações de 128 para 1000 libras em 7 meses.

No entanto, os lucros não eram demonstrados e toda a publicidade em redor da empresa era falsa. Com dívidas a pagar e sem capital para investir, os acionistas não tiveram outra opção senão abandonar o barco, induzindo a descida dos preços.

A crise de 1929 (A grande depressão)

O investimento especulativo de milhares de pessoas no mercado de ações levou à maior crise financeira do sistema capitalista do século XX. Mais uma vez, a bolha foi ainda mais inflacionada pelos empréstimos concedidos pelos bancos aos investidores, para adquirirem mais títulos.

No dia 24 de outubro, o pânico foi lançado aquando da queda abrupta do mercado. Quando as expectativas eram que seria impossível a economia afundar mais, chegou a “terça-feira negra”, onde a bolsa colapsou, bancos fecharam, empresas entraram em falência, e empregados foram despedidos. 

A bolha da internet ou “pontocom” (dotcom)

A causa desta bolha foi a crescente popularidade da internet nos anos 90. De facto, ocorreu uma onda de investimentos especulativos em empresas tecnológicas que simplesmente apresentavam um website na internet, muitas vezes sem algumas receitas.

Novamente, o mercado de ações estava inflacionado, com as empresas avaliadas em biliões de dólares e o índice Nasdaq Composite ($IXIC), que reúne as maiores empresas de tecnologia, a bater recordes. Em outubro de 2002, o frenesim do mercado acabou, a bolha rebentou e a economia colapsou.

A bolha do mercado imobiliário dos Estados Unidos da América

Entre 1996 e 2006, os preços do mercado imobiliário aumentaram para quase o dobro. No entanto, ao mesmo tempo, sinais de um frenesim de mercado insustentável começaram a aparecer.

Efetivamente, a bolha teve origem nas hipotecas subprime, isto é, empréstimos concedidos com juros altos a pessoas que não tinham capacidade para os pagar, mas que pareciam “seguros” por terem, como colateral, a casa que valorizava dia após dia.

A bolha rebentou quando as pessoas deixaram de poder pagar o empréstimo e o preço das casas desvalorizou, o que despoletou uma queda nas bolsas, o aumento do desemprego, a falência do banco Lehman Brothers, e a propagação da crise para o resto da economia mundial.

Atualmente, estamos numa bolha?

Sim, não, talvez. De facto, esta pergunta não tem uma resposta direta. Sublinhamos, outra vez, que identificar uma bolha económica é algo quase impossível já que envolve a complexidade da psicologia humana.

Existem fatores que nos induzem a pensar que nos encontramos numa bolha : (1) a política de taxas de juro próximas de 0% e os consecutivos pacotes de estímulo ajudam a alimentar as bolhas; (2) em geral, o mercado de ações continua a atingir novos máximos; (3) o fenómeno das SPACs permitiu a injeção de um elevada quantia de capital em empresas que podem não ter a melhor gestão ou perspetivas futuras; (4) por vezes, os investidores têm pesado a performance e os critérios ESG igualmente na sua decisão de investimento, o que induz uma excessiva valorização de empresas que os seguem; (5) o crescimento exponencial do mercado de NFTs; (6) o FOMO das criptomoedas representa um sentimento muito forte entre os investidores; (7) finalmente, o crescimento de plataformas de investimento mais acessíveis aos pequenos investidores sem o adequado acompanhamento de plataformas de educação financeira leva a investimentos irresponsáveis.

No entanto, há um elemento em falta na equação: o pensamento do ser humano. De facto, vários inquéritos entre investidores revelaram que a maior parte acredita que nos encontramos numa bolha económica. Ora, para se criar uma bolha económica, é necessário que exista ignorância por parte dos investidores sobre o ponto de situação em que nos encontramos no ciclo económico.

Assim sendo, acreditamos que nos encontramos na segunda fase de uma bolha económica.

6 dicas de como investir numa bolha

Segundo estudos científicos de Daniel Kahneman e Robert Shiller, as perdas nos investimentos das pessoas provocam um sentimento muito mais forte do que os ganhos. Pense um pouco, como se sentiria se o seu investimento de 1 milhão de euros crescesse para 1,2 milhões de euros? E se decrescesse para 800 mil euros?

Acreditamos que, neste momento, o leitor já tem noção da dificuldade de identificar o ponto onde a bolha vai rebentar. Então, porquê arriscar? Considerando tudo descrito anteriormente, apresentamos algumas dicas para que possa proteger os seus investimentos:

  • Construa um portfólio diversificado – certamente, esta é a primeira (e talvez mais importante) dica que deverá seguir, pois funciona para qualquer situação do mercado.
  • Reajuste o seu portfólio frequentemente – se existe uma inflação de preços num certo mercado deverá revisitar o seu portfólio, pois, seguramente, a sua percentagem nesse ativo aumentou. É a altura certa para vender esse ativo até a uma percentagem mais conservadora, realizar algum lucro e investir noutros ativos em que se sinta mais seguro, e que de preferência não estejam correlacionados (para reduzir o risco).
  • Coloque mais dinheiro no seu fundo de emergência – se, em geral, o mercado se encontra inflacionado e não encontra nenhum ativo com o qual se sente confortável ao investir, será uma boa altura para reforçar o seu fundo de emergência.
  • Invista em ações com dividendos crescentes – Uma boa medida de proteção será investir em ações com um alto rendimento de dividendos, já que balança com a perda de valorização do ativo. 
  • Mantenha uma perspetiva de longo prazo – Por maior que seja a quebra no mercado, não entre em pânico e não venda todos os seus ativos. Tente recordar-se que flutuações no curto prazo são normais e insignificantes para os investidores de longo prazo.
  • Use estratégias de investimento com opções – se está confiante quanto a uma quebra que acontecerá num futuro próximo, comprar opções de venda é uma boa escolha para se proteger.

Recorde-se: Não é sobre quanto lucro consegue realizar num curto espaço de tempo, mas sim sobre com quanto dinheiro subsiste quando o mercado entra em queda. 

Autor: Tiago Leite

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