Serão os robôs nossos amigos?

O início da primavera é a época de construir ninhos. Depois de dias de trabalho duro, os pardais sentavam-se, na luz dourada do final da tarde, a relaxar e a cantar alegremente. “Somos todos tão pequenos e fracos. Imaginem como a vida seria fácil se tivéssemos uma coruja que nos ajudasse a construir os nossos ninhos!”. “Sim!” disse outro. “E poderíamos usá-la para cuidar dos pardais mais jovens e dos mais idosos.” “Ele até nos poderia dar conselhos e ficar de olho no gato da vizinhança”, acrescentou um terceiro.

Então Pastus, um pássaro jovem, declarou decididamente: “Vamos enviar espiões em todas as direções e tentar encontrar uma coruja abandonada nalgum lugar, ou talvez um ovo. Um filhote de um corvo também poderia servir.” O bando entusiasmou-se e os pardais começaram a cantar a plenos pulmões.

Apenas Scronkfinkle, um sábio pardal, não estava convencido daquela ideia e exclamou, num tom preocupado: “Isto será certamente a nossa ruína! Não deveríamos pensar na arte de domesticar e domar corujas antes de trazermos uma criatura tão poderosa para o meio de nós?”.

Pastus replicou: “Domar uma coruja parece uma coisa extremamente difícil de fazer. E já será difícil o suficiente encontrar um ovo de coruja. Depois de termos conseguido criar uma coruja, poderemos, eventualmente, pensar em encarar esse outro desafio.”

“Há uma falha nesse plano!”, gritou Scronkfinkle, mas os seus protestos foram em vão, pois o bando já tinha partido para começar a implementar as diretrizes estabelecidas por Pastus.

Apenas dois ou três pardais ficaram para trás. Juntos, começaram a tentar descobrir como as corujas poderiam ser domesticadas ou domadas – sempre temendo que o bando pudesse retornar com um ovo de coruja antes que uma solução para o problema de como a controlar fosse encontrada.

Não se sabe como a história termina, apenas sabemos que este é o início de um dos livros mais emblemáticos sobre inteligência artificial – “Superintelligence”, de Nick Bostrom.

 

A inteligência artificial

Esta temática tem sido debatida em larga escala nos últimos anos, onde muitos chamam a atenção através da hiperbolização dos riscos, enquanto outros acenam com benefícios sensacionais.

A inteligência artificial (IA) pode, de facto, pôr em causa alguns dos pilares fundamentais da nossa existência. Se não pensarmos em domesticar a nossa “coruja” ou o nosso robô, podemos estar a limitar o número de empregos a nível mundial, a privacidade, a segurança e, sem termos necessariamente intenção, poderemos estar a ensiná-lo a discriminar as pessoas.

O Fórum Económico Mundial estimou que a IA substituirá cerca de 85 milhões de empregos até 2025. A mesma organização alega também que, até ao ano anteriormente mencionado, mais de 97 milhões de novos postos de trabalho serão criados.

O saldo é, evidentemente, positivo. Mas será isto suficiente? Será que as pessoas que perdem o emprego são as mesmas que o ganharão? O número, por si, não reflete uma mudança fundamental nos trabalhos criados. É um número que se poderá revelar favorável, e, simultaneamente, impactante para a vida desses seres humanos.

E se estes trabalhos que são perdidos dessem lugar a outro tipo de posições com mais oportunidades de desenvolvimento? Seriam posições do futuro onde os seres humanos sintam reconhecimento e mostrem o seu valor.

Em 1913, Henry Ford introduziu o conceito de “Linha de Montagem” com o objetivo de manter um controlo rígido sobre os funcionários e maximizar a eficiência na produção. A vida do típico trabalhador no processo é satirizada por Charlie Chaplin, no icónico filme “Tempos Modernos”, onde Charlot alcança um ritmo de trabalho incomensurável. Esta crítica não tarda a fazer-nos pensar e percebermos a realidade – os trabalhadores irão começar a questionar o significado do seu trabalho e o impacto que este tem na sua vida. Se o tempo se revela tão fugaz, assustando qualquer ser humano, porquê deixá-lo escapar entre as nossas mãos, como que desesperadamente tentando agarrar grãos de areia? E se os trabalhos mais monótonos fossem delegados para um amigo robô, dando-nos a oportunidade de focar naquilo que, enquanto ser humano, nos diferencia? 

As adversidades

A questão não é fácil de solucionar, apenas sabemos que aquilo que nos distingue no Reino Animal está em nós desde há muitos anos. Homo Sapiens é um termo que deriva do latim – o “homem sábio”. Nós, enquanto sábios, possuímos características que mais nenhum ser detém. Somos criativos, curiosos e temos compaixão. Que máquina poderá reunir todos estes traços simultaneamente? É difícil imaginar um possível exemplo, mas, se em breve existir uma resposta veemente e clara a esta pergunta, poderemos reiterar nervosamente as palavras de Stephen Hawking: “será o fim da raça humana.” – ou, pelo menos, será o fim do nosso valor

Tirando o pior cenário da nossa cabeça, podemos imaginar o seguinte: o nosso amigo robô deixa-nos ser quem realmente somos. Encontraremos vários exemplos em que conseguiríamos perfazer uma transição positiva do nosso posto de trabalho – estou a falar do uso de IA na ajuda ao diagnóstico de uma doença, tratamento de dados ou até chatbots no atendimento ao cliente, por exemplo. Refletindo sobre o último exemplo: os chatbots poderão ser capazes de lidar com consultas e solicitações simples de clientes, permitindo que os representantes (humanos) de atendimento ao cliente se concentrem em tarefas mais complexas e de alto valor, como resolução de problemas e construção de relacionamento com os clientes. Para além de desempenhar uma tarefa que tem em vista a realização pessoal, o trabalhador não perde o contacto com o cliente.

Assim, vemos uma transição (que é cada vez mais real) do mercado de trabalho. Mas será possível ficar apenas por um exemplo tão simples quanto este? E as pessoas que não estão em posição de alterar o seu trabalho? As pessoas que têm contas para pagar, estudos universitários para custear e crianças para alimentar? Há simplesmente demasiadas coisas para fazer. E o mundo, lá fora, o grande desconhecido, é um lugar perigoso.

Mas, a verdade é que esta tecnologia está presente quando dizemos “Hey Siri”, quando jogamos videojogos ou vemos Netflix, desenvolvemos vacinas, fazemos diagnósticos, ligamos o nosso smartwatch ou quando usamos o Google Maps.

A verdade é que se estima que, de acordo com o site Techjury, o mercado global de IA deve atingir mil e seiscentos milhões de dólares até 2030 e aumentará a produtividade dos negócios em 40%.

Incontestável é também o crescimento anual notável que se prevê – 38% até 2030.

Enquanto o investimento em startups de IA sextuplica, precisamos parar e pensar. 

Será que, por força de um impulso, saímos à procura de algo, imitando Pastus, que não sabemos domesticar? Não deveríamos atentar nas palavras de Elon Musk e criar uma “supervisão regulatória, a nível nacional, ou talvez internacional, para garantir que ninguém faz algo disparatado”? Será que devemos desistir de lutar contra o aparecimento da coruja, e fazer dela o nosso “amigo robô”?

Relembremos Amit Ray: “à medida que mais e mais inteligência artificial está a entrar no mundo, mais e mais inteligência emocional deve entrar em liderança.”

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