China parte I: a queda do dragão

Estará a China à beira de um colapso económico?

Comecemos por contextualizar. Quando o Partido Comunista Chinês (PCC) em 1949 chegou ao poder, a China era um país rural com um índice de pobreza enorme. Desde então, mesmo que utilizando uma metodologia no mínimo discutível, o partido conseguiu o feito astronómico de elevar a China à posição de 2ª maior economia mundial em 4 décadas, de um PIB per capita de apenas $200 em 1980, para $10 000 em 2021. Contudo, como diz o ditado “quanto mais alto, maior a queda”, e a China pode não estar imune a esta premissa. A acontecer, as ondas de choque desta queda abismal irão certamente reverberar ao longo das economias mundiais.

Contudo, estes tipos de regimes autocráticos tendem a controlar as informações económicas e sociais internas que expõem ao exterior. E ao longo dos últimos anos, as mesmas que o PCC tem confirmado, poderão ser um bocado dúbias. Isto causa algum ceticismo no mundo quanto aos dados oficiais sobre a performance económica da China. Porém, existem alguns fatores que poderão indicar que o país possa estar à beira de uma retração económica de grande magnitude.

Crise imobiliária

A última década foi mundialmente marcada por uma constante valorização imobiliária. No entanto na China, uma rápida e constante urbanização levou a que a valorização do seu mercado imobiliário quintiplicasse desde o ano 2000, fruto também da especulação excessiva no mesmo. Contudo, na China não se é “dono” de uma casa, mas sim, aluga-se o terreno da casa aos governos locais por um prazo máximo de 70 anos. No final do contrato, o proprietário terá de o renovar ou então é desapropriado. Estes terrenos são mais comumente alugados pelas incorporadoras de imóveis para o desenvolvimento de empreendimentos e posteriormente a sua venda ao público.

Apesar desta aquisição temporária dos imóveis, não impediu o povo Chinês de especular no setor, levando a China a ser o país desenvolvido com a maior Relação de Preço para Rendimento. Este indicador retrata quantos anos de rendimentos, uma família com vencimentos medianos, teria de investir para comprar uma casa de 100 m2 (considerando os preços medianos das mesmas). Em 2022 esta relação encontra-se nos 38 anos e em grandes cidades, como Pequim e Xangai ultrapassa os 50 anos.

O que aconteceu para chegar a este ponto?

Vários fatores sociais e económicos fizeram com que o mercado imobiliário Chinês gerasse a possível maior bolha de mercado que o país presenciou.

  • Rápida urbanização da sociedade – Com o crescimento económico, a população chinesa começou a abandonar as zonas rurais em busca de novas oportunidades em grandes centros urbanos. Isto por si só, criou procura na habitação e estimulou o mercado imobiliário do país.
  • Exposição da riqueza pessoal no setor – Na ótica da maioria do povo Chinês, o mercado imobiliário é o único que possui os fundamentos e confiança para a aplicação do seu dinheiro. A exposição da riqueza pessoal chinesa no setor imobiliário ronda os 70% comparativamente aos restantes mercados.
  • Má gestão dos investimentos pessoais e alavancagem extrema – Quando um mercado entra numa fase de euforia, é normal observar-se os seus participantes a exporem-se a maiores riscos e mentalizarem-se que o mesmo nunca irá parar de subir, conhecido como FOMO (Fear Of Missing Out). Neste sentido, os compradores chegavam a pagar a totalidade das casas (não apenas um sinal) para empreendimentos projetados, sendo que na maioria, o pagamento era feito através de contração de créditos.
  • Incorporadoras de imóveis e governos locais – Neste ponto, esquemas de corrupção e má estratégia governamental tiveram um grande impacto e permitiram criação da bolha. Para os governos locais, o arrendamento dos terrenos é a sua única maneira de financiamento, pois todas as outras taxas cobradas são coletadas por Pequim. Para as incorporadoras de imóveis, o mercado estava tão quente que qualquer empreendimento que projetassem eram vendidos em tempo record. Muitas destas empresas, usavam o dinheiro das pré-vendas das casas para financiar projetos inacabados e alugar novos terrenos aos governos locais para expandir o negócio. Contudo, a sustentabilidade deste modelo de negócio é no mínimo questionável, deixado brechas para que tudo corra mal…

O colapso da Evergrande e protestos contra bancos

Este castelo de cartas começou a demoronar-se há cerca de um ano, quando a gigante incorporadora de imóveis Evergrande, começou a apresentar problemas de solvência das suas dívidas – que chegaram aos 300 mil milhoes de doláres. Esta divida afeta vários setores da economia chinesa, desde empresas de construção sub-contratadas, investimentos privados, investimentos internacionais – como a Blackrock – e bancos, que pode pôr em causa os seus balanços patrimoniais.

Recentemente, a saga tem-se desenvolvido, quando em Abril deste ano, bancos regionais na província de Henan congelaram os fundos dos seus clientes, afetando cerca de 400.000 pessoas e 6 mil milhões de doláres em depósitos. Este cenário criou agitação na população e gerou uma onda de protestos, onde as pessoas requeriam acesso ao seu dinheiro – sendo que um protesto em frente ao Banco Popular da China em Zhengzhou, acabou por ser violentamente dispersado pelas autoridades locais. Isto acabou por ser o percursor para uma nova medida de protestos, uma onda de boicotes ao pagamento de prestações bancárias de empreendimentos inacabados, afetando cerca de 330 projetos em 100 cidades. Segundo uma previsão feita pela S&P Global Ratings, estarão em causa cerca 356 mil milhões de dólares, representando aproximadamente 6,4% do total das hipotecas, que poderá pôr em risco todo o setor bancário do país.

Esta análise continua na parte II.

DEIXA UM COMENTÁRIO

Por favor, envie o comentário!
Por favor, escreva o seu nome aqui

spot_imgspot_img

Últimas notícias

Receba o ebook "Os primeiros investimentos" GRATUITAMENTE

Basta carregar no botão abaixo

Artigos Relacionados

spot_imgspot_img