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Prémio Nobel: Causa-Efeito (2021)

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Será que estudar mais anos implica ganharmos mais? E ganhar mais implica vivermos mais? Será que a correlação entre dois acontecimentos implica que um seja a causa do outro?

Quando tomamos uma decisão temos de ter em consideração as consequências que as nossas ações irão ter. Isto aplica-se tanto a situações individuais como a decisões políticas macroeconómicas. No entanto, não interessa apenas saber as consequências diretas das nossas ações. Importa também refletir sobre o que aconteceria caso não prosseguíssemos com a nossa ação.

David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens foram os três laureados com o Nobel da Economia no presente ano. Os três cientistas sociais mostraram que experimentações naturais podem ser usadas para responder a questões centrais da sociedade. Através da sua investigação, é agora possível identificar com clareza quais as causas e efeitos da influência do salário mínimo, da imigração e da educação no mercado de trabalho.

Nas ciências exatas, por exemplo, na indústria farmacêutica, a experimentação passa por alocar indivíduos aleatoriamente a diferentes tipos de tratamento e estudar os seus efeitos. Tendo em conta a impossibilidade de transferir situações sociais para um laboratório, os três mostraram como era possível estudar experiências naturais sociais e obter resultados fidedignos.

No campo da experimentação existem as experiências laboratoriais e as experiências naturais. Nas primeiras, existe um grupo de controlo e um grupo sujeito ao tratamento, ambos escolhidos a dedo pelos cientistas. Nas experiências no meio natural, apesar de os cientistas saberem quem são os intervenientes e o grupo a que pertencem, as conclusões não são tão fáceis de obter, uma vez que são os indivíduos que escolhem se querem ou não sujeitar-se ao tratamento social. Para além disso, à partida, parece que experiências naturais não ocorrem com frequência. No entanto, isso não é verdade. Podemos observar experimentações naturais no meio social quando há alterações de políticas que alteram as decisões dos indivíduos (maiores subsídios à educação, alteração das propinas, etc.). Isto aloca aleatoriamente os indivíduos a diferentes grupos, ou seja, sem intenção, uns pertencem ao grupo de controlo, o grupo que não foi influenciado pela medida, e os outros, também sem intenção, ao grupo sujeito ao “tratamento”.

Recorrendo a uma questão que é ponderada por muita gente, será que estudar mais anos levará a que ganhemos mais no futuro? A resposta a esta questão implica que olhemos para dados que relacionem o nível de educação com o salário médio efetivamente ganho. O gráfico seguinte reflete o caso dos Estados Unidos da América. É evidente que, por cada ano adicional, em geral há um aumento do salário. No entanto, é relevante salientar que o facto de existir uma correlação entre o nível de educação e o salário não quer dizer que um seja a causa do outro.

A figura construída com dados recolhidos por Angrist e Krueger mostra que pessoas que frequentaram o ensino durante 12 anos recebem 12% mais do que pessoas com apenas 11 anos de estudo. Por outro lado, pessoas com um nível de educação equivalente a 16 anos recebem 65% mais do que se só tivessem estudado 11 anos.

Fonte: The Nobel Prize

A partir desta informação podemos concluir que o efeito de estudar mais anos é receber um salário 7% superior? Não, pois as pessoas diferem muito para além do nível de educação atingido, desde talentos a predisposição para estudar enquanto trabalham, por exemplo.

O mesmo ocorre quando se pretende perceber qual o efeito do rendimento na longevidade. A evidência demonstra que, em média, indivíduos com um maior nível de rendimento vivem mais anos. Mas será que essa maior esperança de vida se deve ao salário? De facto, existe correlação entre as duas variáveis, mas uma relação de causa-efeito é questionável. A longevidade relaciona-se tanto com o local como com o desenvolvimento do meio onde a pessoa vive. Logo, falar em relação de causa-efeito é um pouco precipitado.

Em 1994, Joshua Angrist e Guido Imbens mostraram como era possível dar a volta ao problema encontrado nas experimentações naturais ou aleatórias. Nos Estados Unidos da América, dependendo do estado, é possível abandonar a escola com 16 ou 17 anos. Mais ainda, se um adolescente nascer no início do ano, pode acabar a escola mais cedo do que se tivesse nascido mais para o final do ano. Os dois cientistas observaram que as pessoas nascidas no 1º e 4º quadrimestre do ano estudavam menos tempo e as primeiras ganhavam menos do que as últimas. Devido ao nascimento ser uma experiência natural aleatória, Angrist e Krueger puderam estabelecer uma relação de causa-efeito entre a escolaridade e o rendimento dos indivíduos: um ano de educação adicional tem um efeito positivo de 9% no rendimento (superior aos 7% verificados anteriormente). No caso de um grupo de indivíduos ter elevados níveis de educação e de rendimento, que poderão não ter nada a ver com a escolaridade atingida, a correlação não deveria ser superior ao efeito causal? Porque será que não aconteceu isso no estudo efetuado?

Fonte: The Nobel Prize

Efeitos do salário mínimo

No início dos anos 90, acreditava-se que salários mínimos superiores levavam a menor desemprego pelos custos em que obrigavam as empresas a incorrer. No entanto, a evidência não suportava corretamente esta teoria e os estudos indicavam até uma correlação negativa entre o nível do salário mínimo e o emprego. Mais uma vez se levanta a questão: será que o facto de o salário mínimo ser superior causa maior desemprego? O contrário poderá ser verdade: um maior nível de desemprego pode levar a que os salários sejam menores.

Mais uma vez, Card e Krueger recorreram a uma experiência natural para investigar as consequências do salário mínimo no desemprego. No início dos anos 90, em Nova Jersey, o salário mínimo subiu de 4,25$ para 5,05$, mantendo-se o mesmo na Pensilvânia. Apesar das diferenças entre os dois estados, os mercados de trabalho eram semelhantes e não havia outra razão económica aparente que pudesse afetar estes dois mercados, para além da alteração do salário em Nova Jersey. Assim, qualquer alteração no emprego em Nova Jersey diferente da do outro lado da fronteira levaria à conclusão de que a causa dessa variação no emprego se deveria à variação no salário mínimo.

Fonte: The Nobel Prize

Para uma investigação mais precisa, os dois premiados focaram-se no emprego de indústrias com menores salários, por exemplo, restaurantes de fast food, verificando que não existia qualquer alteração no nível de emprego destas. Este estudo estendeu-se a outras indústrias e a conclusão a que chegaram foi que os efeitos negativos da subida do salário mínimo são pequenos e menores do que se acreditava há 30 anos.

Mas como se podem explicar estes efeitos mínimos negativos? As empresas podem transferir o aumento de custos para o consumidor através dos preços sem grandes alterações na procura. Podem, por outro lado, se dominarem o mercado de trabalho local, manter os salários baixos pelo facto de haver mais gente a querer trabalhar, mexendo com a oferta e a procura neste mercado. Neste caso, não é possível determinar com precisão o que irá acontecer aos níveis de emprego.

Imigração e educação:

Outro grande tema investigado pelos autores relaciona-se com os efeitos da imigração no mercado de trabalho. Para entender os mesmos necessitamos de perceber o que teria acontecido se não tivesse havido imigração. Os imigrantes estão em zonas em que o mercado de trabalho se está a desenvolver, pelo que comparar zonas com muitos e poucos deslocados não é uma boa estratégia.

A experiência natural desta vez estudada por Card foi a autorização de Fidel Castro à saída dos cubanos para outros países. Devido a isso, houve uma grande afluência de cubanos que se instalaram em Miami, levando a um aumento da força de trabalho em 7% nesta zona. Para entender a evolução do emprego e do salário em Miami após esta variação de oferta de mão de obra, Card comparou o mercado de trabalho desta cidade com outras quatro que não foram afetadas.

A conclusão obtida foi que não se registou nenhum efeito negativo na população de Miami com baixos níveis de educação e os salários e o emprego não desceram. Pelo contrário, um aumento da imigração teve um impacto positivo no emprego de alguns grupos. Por outras palavras, a chegada de imigrantes libertou trabalhadores nativos para empregos em que era exigida a língua do país, levando a que não houvesse concorrência entre trabalhadores nativos e não nativos.

No tempo pré-Card, acreditava-se que escolas com mais recursos eram melhores, o que levaria a um maior sucesso das pessoas que as frequentavam. No entanto, era ignorado que escolas mais deficitárias eram as mais abonadas em termos de ajudas como forma de compensação dessas diferenças.

Para analisar o efeito do acima descrito, Card e Krueger analisaram indivíduos que viviam no mesmo estado dos EUA, mas que tinham crescido em diferentes estados. Os resultados desta análise mostraram que os recursos investidos na educação, como um maior número de professores por alunos, tinham impacto no futuro dos indivíduos. Verificou-se, ainda, que isto ganha importância com a degradação do estrato social dos indivíduos.

Em cenários reais é difícil estabelecer uma relação de causalidade, pois não são conhecidas todas as características e contextos dos indivíduos. Por exemplo, o facto de se tornar possível o abandono escolar aos 16 anos não altera muito facilmente as decisões dos estudantes que já haviam decidido que queriam prosseguir com os estudos.

Joshua Angrist e Guido Imbens debruçaram-se sobre o mesmo problema que Card e Krueger relativamente ao impacto da educação, mas foram um pouco mais longe. Sob que circunstâncias podemos recorrer a uma experiência natural e aplicar os resultados a uma situação específica, sabendo que não temos um conhecimento completo dos participantes? Como podemos fazer esta estimação e interpretá-la?

O método aplicado por estes dois cientistas consiste no seguinte: existe o grupo intervencionado (participante) e o grupo de controlo (não participante); aplica-se o método de variáveis instrumentais. De acordo com este método, estima-se e integra-se a probabilidade de a experiência natural levar a que os indivíduos participem no programa. Dados alguns pressupostos sugeridos pelos autores, é possível fazer-se a extrapolação das conclusões do geral para um caso particular, mesmo sem se conhecer os participantes.

Uma ressalva importante acerca da pesquisa de Angrist e Krueger é que a probabilidade de os indivíduos participarem na experiência só inclui indivíduos que mudaram de opinião com o surgimento da experiência. Assim, os tais 9% de aumento do salário são referentes apenas a indivíduos que decidiram abandonar a escola após saberem que isso era possível. Este efeito ficou conhecido como efeito do tratamento médio local (local average treatment effect – LATE). Apesar de não ser possível saber quem são os participantes, é possível saber a dimensão do grupo. 

Fonte: The Nobel Prize

Esta análise é interessante pois permite que se aplique a muitas outras experiências com características base semelhantes. Estes resultados aumentaram a transparência e credibilidade da pesquisa científica no campo social.

O trabalho dos três cientistas sociais representa uma revolução na análise empírica das ciências sociais que trouxe credibilidade e transparência à mesma. Através dos resultados encontrados é possível responder a grandes questões que assolam a sociedade.

Autor: Mariana Pisco

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