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Investimento Sustentável e ESG – Uma Farsa?

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Como é que podemos ser ambientalmente conscientes através dos nossos investimentos? A resposta parece simples: aplicando o dinheiro em produtos ou empresas que demonstram ter uma preocupação ativa em matéria de responsabilidade social. Podemos pensar que nem é preciso uma pesquisa muito complexa sobre os ativos que constituem o fundo de investimento ou o exchange traded-fund (ETF) em que queremos investir porque agora existe uma rubrica que nos elucida sobre a responsabilidade ambiental, social e governativa, a ESG. Mas será mesmo assim? 

O que é ESG?

Se procurar por uma definição legal do que significa ser ESG não vai encontrar. A definição usada pelas agências que concedem a certificação ainda é um tanto vaga. O produto que associa estas três letras tem de ser “responsável” em três frentes. Considerar os impactos ambientais dos investimentos que faz. Por exemplo, um fundo de investimento com uma posição na ExxonMobil ($XOM) não seria considerado pela maioria um produto digno de receber uma boa classificação ESG. Tem também de considerar os impactos sociais. Não seria socialmente responsável um fundo que facilitasse o financiamento de empresas que recorrem a trabalho infantil ou não respeitam a lei laboral. Da mesma forma, o produto financeiro em questão, vai querer associar-se a empresas que possuem mecanismos de controlo interno para assegurar a legalidade e transparência de todas as operações. 

De acordo com um relatório do Forum for Sustainable and Responsible Investment, só nos Estados Unidos, o total de ativos sob gestão (AUM) que usam uma ou mais estratégias de sustentabilidade somaram 17,1 biliões de dólares, em 2019. As empresas de investimento que contemplam ativos com a rubrica ESG são hoje mais de 800. Uma tendência que tem vindo constantemente a crescer. 

Faz diferença investir num produto ESG? 

No entanto, quando investimos num ETF ESG e nos preocupamos em analisar quais são as empresas que o constituem, chegamos à conclusão que não existe uma diferença significativa da maioria dos outros fundos. Na generalidade, um fundo ESG investe a maior parte do seu capital em empresas que qualquer outro fundo diversificado investe. Vejamos o exemplo do Vanguard ESG ($ESGV). Desde a sua criação, a correlação do Vanguard ESG com o Vanguard S&P 500 ($VOO) é praticamente 1, ou seja, os fundos estão praticamente sincronizados. No entanto, existe um outro fator diferenciador. Neste momento, o rácio de despesas do ESGV é de 0,12% enquanto que o rácio de despesas do VOO é de 0,03%. Os investidores estão dispostos a pagar mais pelo investimento quando está em causa um valor mais nobre e os bancos e as corretoras sabem disso. Este é um exemplo isolado, não quer dizer que aconteça o mesmo com outros fundos ESG. Também, não é por investir no ESGV que nos vamos proteger melhor de uma possível crise no mercado petrolífero, por exemplo, do que se investíssemos no VOO. 

A sigla ESG não é completamente elucidativa. Temos de ter atenção aos holdings do portfólio. E se o nosso objetivo é pôr dinheiro num produto que altere de forma positiva o ambiente, devemos lembrarmo-nos que, até hoje, não há qualquer evidência empírica que apoie a ideia que um investimento ESG é um bom investimento para o ambiente. 

Muitas empresas desinvestem do setor petrolífero com o objetivo de contribuir para um desenvolvimento sustentável no setor energético e conseguirem associar a rubrica ESG aos seus nomes. Mas, a lei da oferta e da procura aplica-se largamente aos mercados financeiros. Se a JPMorgan ($JPM), por exemplo, desinvestir da ExxonMobil, outro investidor, que não tenha o mesmo nível de responsabilidade social, comprará essas mesmas ações. Mais! Se a JPMorgan tem como objetivo influenciar a indústria dos combustíveis fósseis, não seria por continuar investido nessa indústria que conseguiria fazer uma real diferença? Continuaria com um voto relevante nas assembleias gerais e poderia influenciar a gestão e estratégia das empresas em causa. Em vez disso, ao desinvestir das empresas estão a dar poder a outros investidores de continuarem a tomar as mesmas decisões que até agora foram tomadas. Decisões que têm como objetivo o retorno das operações.

O Engine No.1 é um fundo de investimento de impacto sustentável e ativista que este ano fez exatamente o contrário. O fundo tem o objetivo de “criar valor a longo prazo através do aproveitamento do poder do capitalismo”. Conseguiram um pouco mais de 1% das ações da ExxonMobil e asseguraram três representantes que estão hoje a trabalhar com o conselho de administração da empresa.

Regulação do termo ESG

A etiqueta “produto orgânico” também era usada de acordo com os diferentes critérios de várias entidades. Hoje, a União Europeia tem o termo regulado. O mesmo deverá acontecer com o termo “ESG”. A SEC está a trabalhar numa proposta que requererá uma ampla divulgação das medidas associadas às alterações climáticas, a qual será obrigatória para uma empresa que queira associar a rubrica ESG ou na criação dum fundo sustentável. 

À medida que investimos em produtos ESG, sem dúvida, deixamos clara uma mensagem: preocupamo-nos com a responsabilidade social dos nossos investimentos. Ao sinalizarmos a vontade de investir de forma crítica, a longo prazo, os bancos e as corretoras vão ao encontro da procura e assim estimularão as empresas e as suas operações. Mas, se forem as próprias entidades financeiras a inspirar os critérios do que é merecedor da sigla ESG, o mais certo é fazerem-no com o lucro em vista. 

Enquanto as entidades governamentais legislam o enquadramento da sustentabilidade no mundo das finanças, cabe a nós, investidores, informarmo-nos e ser criteriosos antes de tomar uma decisão. Neste caso, perceber se o investimento vai de encontro aos nossos valores ou aos objetivos a que nos propomos.

Autor: João Costa Maia

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