China parte II: a queda do dragão

Na Parte I, contextualizámos a situação económica da China. Desde a crise imobiliária, aos eventos que trouxeram a China a este ponto, passando pelo colapso da Evergrande e os protestos contra os bancos. Aqui, na parte II, damos continuidade à análise económica da China e aos eventos relacionados.

Crise da infraestruturas

Por outro lado, o PCC tem um problema de dívida maior às suas costas. Um problema, que outrora foi uma aposta que fez com que a crise de 2008 passa-se despercebida na China, empregando milhões de pessoas e criando infraestruturas que ajudaria o país a manter o seu crescimento económico na década subjacente. Este megaprojeto foi o investimento na infraestrutura de TGV, conectando todos os principais pontos urbanos ao longo do país. Isto permitiu que a população, bastante deslocada devido à urbanização, se movimentasse de forma mais económica pelo país.

Enquanto que em maior parte dos países desenvolvidos, projetos desta dimensão demorariam décadas a serem completados, em pouco mais de uma década foram construídos cerca de 35 000km de linhas de comboios de alta velocidade. Com perspectivas que a infraestrutura alcance os 70 000km em 2035.

No entanto, devido à magnitude do projeto, inviabilidade económica de algumas rotas, a pandemia e a necessidade de manutenção das linhas, criaram uma tempestade perfeita para que o projeto megalômano criasse um buraco sem precedentes no governo chinês, de quase 1 bilião de dólares.

Políticas de Covid Zero

Quando o tema é o Covid-19, a China está sempre com a zaragatoa pronta a atuar! De facto, as medidas de covid zero chegam a roçar o ridículo. Enquanto o resto do mundo virou a página da pandemia, a China insiste em continuar de guerra aberta contra o vírus, levando cidades de milhões de habitantes a ficar de quarentena e a eventos de testes em massa. Fazendo parecer que o Covid é usado como ferramenta para que o regime afirme a sua autoridade. Se considerarmos que aproximadamente de 28% da fabricação mundial tem origem na China, estas medidas agravam a pressão inflacionária dos produtos, provocando choque no lado da oferta.

Claro que seria de esperar que a China fosse mais severa nas suas medidas contra o Covid-19. Fatores como densidade populacional, população envelhecida e falta de infraestruturas que suportem muitos internamentos, tem um grande peso e poderia causar o caos caso o vírus se propaga-se livremente. No entanto, estas medidas trazem consequências, tanto económicas como sociais. Quantos às primeiras, fechar as pessoas dentro de casa, ou até mesmo a ideia de que ao saírem poderão estar expostas ao risco de ficar de quarentena, reduz o consumo da população e consequentemente a estimulação da economia. Do lado social, tem-se visto o aumento do descontentamento geral da população, desde protesto sobre as quarentenas que deixaram populações com escassez de mantimentos, até às taxas de desemprego recorde que as gerações mais novas têm presenciado, rondando os 20%.

A invasão de Taiwan

A invasão da Ucrânia por parte da Rússia despertou algum receio internacional sobre a potencial invasão a Taiwan. Os problemas internos presenciados na China, poderão levar a que o regime tome uma atitude mais assertiva e agressiva, no que se trata às políticas internacionais.

No entanto a retórica da reunificação de Taiwan não é nova. O crescimento do movimento independentista de Taiwan, tem levado o PCC a se tornar mais agressivo perante a ilha, garantindo que a mesma seria tomada “à força” se necessário. Também, a aproximação entre Taiwan e os Estados Unidos têm acrescentado fervura à situação, sendo que a recente visita de Nancy Pelosi à ilha fez com que a China intensificasse os seus ensaios bélicos e ameaças à ilha.

O que significaria a invasão a Taiwan para a economia Chinesa?

Taiwan é o lar de cerca de 90% da produção mundial de microchips avançados, usados tanto em indústrias ligadas ao consumidor, como na indústria militar. Portanto, se a China conseguir anexar o território terá em sua posse ferramentas poderosas, que permitirão que o país fique numa posição favorável a dominar setores importantes da economia mundial.

Contudo esta anexação hipotética será bastante contestada mundialmente, os Estados Unidos confirmaram que iriam apoiar militarmente Taiwan no caso de um conflito com a China, sendo que se o conflito despertar, provavelmente outros irão apoiar, como o Japão, Australia e Coreia do Sul. Sendo que, caso a mesma aconteça será de esperar que a China seja sancionada internacionalmente – tal como aconteceu com a Rússia – debilitando a sua economia que é dependente de exportações. Acrescentando os custos de guerra, perdas militares e os problemas internos derivados, a invasão poderá devastar a economia chinesa.

Mas o quão viável será uma invasão a Taiwan?

Por não ser um especialista na arte da guerra e invasões, deixarei de lado todo o potencial desenvolvimento da invasão. Mas sobre este mesmo tópico, deixarei realçado que tal não será fácil para o Exército de Libertação Popular Chinês. Primeiro porque Taiwan é uma ilha, que por si só dificulta uma invasão. Segundo, Taiwan tem cerca de 40% do tamanho de Portugal e contém mais do dobro da população, sendo uma das regiões do mundo com maior densidade populacional. Para além disto, possui também uma grande densidade de infraestruturas de alto interesse económico e bastante sensíveis. Por tanto, um bombardeamento excessivo à ilha poderá não ser viável.

Escrutínio empresarial de empresas listadas em bolsa

Com o aumento das tensões entre a China e os EUA, aumentou também a pressão sobre as atuais 261 empresas chinesas listadas nas bolsas dos Estados Unidos. Recentemente a SEC (Securities and Exchage Commission) identificou que de acordo com a nova Lei de Responsabilidade de Empresas Estrangeiras, mais de 80 empresas chinesas eram auditadas por auditores sediados sobre jurisdição da China e Hong Kong, acabando por serem consideradas estar em “não conformidade” segundo o Conselho de Supervisão Contabilístico de Empresas Públicas (PCAOB). Pondo estas empresas em risco de deslistagem das bolsas Americanas, incluindo a gigante Alibaba.  Esta lei vem depois do PCAOB ter determinado que todas as firmas de auditoria sediadas nestas localizações, não estariam acessíveis ao Conselho, devido às leis chinesas de proteção de segredos de estado e segurança nacional.

No caso de Pequim não colaborar com a auditoria a estas empresas, as mesmas serão deslistadas. No entanto, ambas as partes chegaram a um acordo e a SEC mobilizará auditores para Hong Kong para proceder às auditorias das empresas em questão e posteriormente determinar se estarão em conformidade com a regulamentação imposta pelos Estados Unidos. Porém, esta incerteza contribuiu para que houvesse o maior fluxo negativo de investimento estrangeiro no país.

Conclusão

De facto o atual estado da economia chinesa apresenta sinais preocupantes quanto à sua estabilidade. O setor imobiliário provavelmente encontra-se num estágio inicial de uma depreciação considerável, que poderá pôr em risco vários setores da sua economia. A incerteza sobre o papel do PCC e o encobrimento sobre o início da pandemia, o aumento das preocupações mundiais sobre possível espionagem e infiltração através de tecnologia chinesa (como a Huawei) e instabilidade no mercado internacional de chips, provocada por uma possível invasão a Taiwan, tem provocado o aumento do movimento “ser duro com a China” na política Ocidental, que poderá levar à taxação e boicotes de produtos chineses.

No entanto, a China alcançou o estatuto de superpotência de fabricação, conseguindo assim excedentes consideráveis das suas trocas comerciais nas últimas décadas. Ao mesmo tempo tem um grande controlo do capital, que ajudará a manter a valorização da sua moeda – medidas que ajudaram a Rússia a evitar o colapso do Rublo – evitando assim que a mesma entre numa espiral depreciativa e eventual hiperinflação no país. Estas razões permitem à China ter margem para resgatar a sua economia, algo que já tem feito, quando em agosto fez cortes na taxa de juros do seu banco central, como medida para aliviar o setor imobiliário, permitindo também às incorporadoras imobiliárias aumentarem a sua exposição a crédito para terminar empreendimento embargados.

Outro ponto a favor da China, é o facto de o país ter investido – em forma de empréstimos – centenas de milhares de milhões de dólares internacionalmente, no projeto conhecido por Belt and Road Iniciative (BRI) ou a Nova Rota da Seda. Este é um investimento em infraestruturas de suporte das rotas de comércio chinesas, principalmente em países em desenvolvimento. Muitos analistas consideram estes investimentos como uma “armadilha de dívida” a estes países, que poderá levar a uma nacionalização de pontos estratégicos pelo mundo fora.

Apesar de tudo parecer catastrófico na sua economia, a China tem a vantagem de poder aprender com eventos de recessões e depressões que aconteceram na história da economia moderna. Com isso, o mais provável é que a economia chinesa entre numa recessão lenta e controlada, invés de uma queda descontrolada e abrupta – apesar de existir sempre a possibilidade de tal acontecer.

Contudo, esta semana será marcada pelo evento mais importante no calendário político chinês dos últimos 5 anos. Trata-se do 20º Congresso Nacional do PCC, que decorre entre o dia 16 e 23 de outubro, onde existe a possibilidade de o atual líder Xi Jinping ser escolhido para um 3º mandato (algo que foi adicionado na constituição do país em 2018). A sua permanência (ou não) no poder poderá mudar fundamentalmente o panorama político-social do país. Porém esta poderá ser contestada pela fração do antigo presidente Jiang Zemin. Em breve saberemos.

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