A educação financeira nas universidades

O meu percurso nas finanças pessoais tem já mais de uma década mas apenas em Maio de 2020 comecei a partilhar o meu conhecimento e as minhas ideias nas redes sociais. Comecei a fazê-lo com um objetivo muito claro: contribuir para melhorar a literacia financeira dos portugueses. Nesse mesmo ano, sai um estudo do BCE que coloca Portugal e os portugueses no último lugar do ranking da literacia financeira e isso só veio contribuir ainda mais para a minha vontade de fazer diferente.

Desde então, associei-me a várias iniciativas, entre as quais a Meu Capital para que todos juntos possamos trazer um bom resultado para este objetivo que partilhamos em comum. Ao longo desse caminho, um ponto surgiu como algo que todos concordamos: estes temas devem ser ensinados nas escolas e continuam a não o ser. Com isso em mente, surgiu um novo objetivo: mudar isso.

Durante o ano de 2022 entrei em contacto com várias Associações de Estudantes na zona do Grande Porto na expectativa de conseguir levar esses temas para mais perto dos alunos. Até ao momento em que escrevo este artigo, as associações de estudantes do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto responderam e aceitaram o desafio.

Neste artigo vou partilhar a minha experiência nestas iniciativas.

Porque é importante levar esses temas aos estudantes universitários?

Estamos todos de acordo, espero, que os temas das finanças pessoais deveriam fazer parte dos currículos escolares desde muito cedo, idealmente até no 1º ciclo, tentando combater, logo desde início, a falta de conhecimento que existe nas casas dos alunos. No entanto, hoje estamos tão longe disso que a mudança irá demorar bastante tempo até acontecer e isso obriga-nos a sermos mais criteriosos nos nossos objetivos. Com isso em mente, devemos começar por aqueles estudantes que mais brevemente irão começar a ter os seus ordenados e as suas contas para pagar, ou seja, os estudantes universitários.

Estamos a falar de pessoas que nos espaço de poucos anos vão começar a ser confrontados com a gestão do seu ordenado e, consequentemente, do seu orçamento pessoal, da eventual saída de casa dos pais e de todos os custos que aí vêm associados. Se conseguirmos que estas pessoas tenham um início de vida financeira bem sucedido, então aumentamos muito a probabilidade de conseguirmos impactar os outros à nossa volta.

Os nossos estudantes são a geração mais bem formada e bem preparada de que há registo, o que significa que hoje, mais do que nunca, poderão aceder a profissões e condições salariais muito competitivas. Também por isso é hoje cada vez mais importante que eles saibam o que fazer com esse dinheiro que recebem.

Como reagem os estudantes a estes temas?

Quando comecei a contactar as Associações de Estudantes, honestamente, não esperava que houvesse um interesse tão grande como houve. Além do ICBAS e da FEUP, tal como mencionado no início do artigo, muitas outras mostraram interesse em promover este tipo de workshops junto das suas comunidades e isso mostra-me que há, claramente, vontade dos estudantes aprenderem sobre estes temas que, como mencionado anteriormente, continuam a não fazer parte dos planos de estudos, nem sequer como cadeira ou disciplina opcional.

Conseguindo ultrapassar o primeiro obstáculo e passar a “porta de entrada”, vem a segunda parte do desafio: qual seria a adesão dos próprios alunos a esta iniciativa? Por muito interessada que a Associação de Estudantes estivesse, conseguiríamos atrair os estudantes para estes temas?

A fotografia abaixo mostra a resposta a isso:


Esta foto é do Workshop que facilitei no dia 21 de Novembro de 2022 na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e conseguem contar-se algumas dezenas de estudantes. Neste dia estive, sensivelmente, uma hora e meia a falar sobre produtos de poupança e investimento – capital garantido, obrigações, ações, fundos de investimento e muito mais. Mostrei a estes estudantes as várias hipóteses de investimento que existem e como tudo isto é realmente muito acessível a todos.

Terminei a apresentação com um desafio: mostrei-lhes o ordenado médio de um Engenheiro em Portugal e desafiei-os a colocarem, desde o início das suas carreira, 20% desse valor numa carteira de investimento devidamente diversificada entre os vários produtos que lhes tinha acabado de mostrar. O resultado? Todos aqueles estudantes se reformariam milionários. Subitamente, os olhos brilharam, os sorrisos apareceram e os telemóveis começaram a tirar fotografias aos gráficos. No final apenas lhes disse: “façam um favor a vocês próprios e reformem-se milionários”.

Respondendo à questão “como reagem os estudantes a estes temas?” a resposta que dou é “depende de como forem apresentados” e isso não é diferente de qualquer outro grupo de pessoas. Se a comunicação for clara, direta e lhes tocar diretamente às emoções, qualquer pessoa vai reagir positivamente e irá ficar com a mensagem gravada na memória.

O que perguntam os estudantes?

Tenho acompanhado, nos últimos anos, muitas pessoas em sessões de mentoria. Estas pessoas têm idades, histórias e finanças muito diferentes entre elas e cada caso é um caso. No entanto, tenho encontrado vários padrões e várias ideias pré-concebidas e os estudantes não são diferentes.

Aqui ficam algumas das questões que surgiram nestas experiências

Investir não está ao alcance de todos

Confesso que não sei de onde surgiu este mito mas a verdade é que está muito enraizado nas nossas pessoas e isso afasta-as logo à partida de sequer aprenderem sobre isso. Quero que fique aqui muito claro – investir está ao alcance de qualquer pessoa que o queira fazer! Muitas vezes nem é preciso fazer nada de extraordinário. Lanço aqui um desafio: vá ao site do seu banco e veja se não tem lá um separador a dizer “investimento” ou algo do género. É muito provável que o seu próprio banco tenha uma oferta de fundos de investimento ou PPR (sob a forma de fundo) para subscrever. Se são, ou não, as melhores alternativas, não sei. No entanto, uma coisa é certa: investir está ao alcance de todos os que o queiram fazer

O drama dos impostos

Em Portugal pagam-se muitos impostos. Na verdade, Portugal é o 6.º país no espaço comunitário onde o esforço fiscal é maior, o que juntamente com rendimentos dos mais baixos no espaço Europeu, colocam ainda mais pressão e “problemas” na parte fiscal. Nos investimentos, paga-se habitualmente 28% de IRS sobre os rendimentos, sejam mais valias, dividendos ou qualquer outra forma.

Um comentário que fazem habitualmente é “investir para entregar 28% ao estado então nem vale a pena”. A isso respondo com dois argumentos. Em primeiro lugar, 72% do ganho fica connosco, o que não me parece um mau negócio. Em segundo lugar, desafio qualquer pessoa a ir ver o seu recibo de vencimento. Muito facilmente está a descontar 28%, ou mais. Como vi há uns dias algures nas redes sociais. “não investir para não pagar 28% de IRS é igual a não trabalhar para não pagar IRS e SS”. Se a segunda não faz sentido, então a primeira provavelmente também não.

Os ganhos rápidos

Na era das redes sociais, especialmente, somos invadidos com milionários instantâneos que nos prometem resultados semelhantes se fizermos exatamente o que eles fizeram, a troco de um qualquer preço que nós pagamos, claro. 

Há uns tempos escrevi para a Meu Capital este artigo a falar sobre burlas financeiras, e as promessas de ganhos rápidos são umas das burlas mais habituais. Pegando no exemplo que dei há pouco sobre os alunos da FEUP se reformarem milionários. De que forma posso “competir” com alguém que lhes diga que faz deles milionários apenas num par de anos? Na verdade, não posso, nem quero. Há uma coisa que tenho a certeza: os alunos que quiserem ser milionários na reforma vão sê-lo. Aqueles que querem ser milionários em 2 ou 3 anos, provavelmente não. 

O caminho que existe a percorrer

Neste momento existem muitas pessoas e projetos, tal como a Meu Capital, a contribuir para melhorar a literacia financeira dos Portugueses e esse é o caminho que temos de fazer: continuar a falar do assunto, abertamente, de forma descomplicada e sem tabus, para que consigamos sair da cauda da Europa, também neste tópico.

Ainda há muito trabalho para fazer, mas se houver uma aposta maior nos mais jovens, os resultados serão muito maiores. Se 10% dos estudantes que assistiram ao workshop ficarem a pensar no tema e continuarem a aprender, então naturalmente irão influenciar outros a fazer igual. É muito mais fácil sermos influenciados a fazer algo por colegas e amigos do que por professores ou formadores. 

No entanto, alguém tem de dar o pontapé inicial e isso compete a toda a comunidade de formadores, especialistas e criadores de conteúdo desta área. Quanto mais formos e quanto mais falarmos sobre isso, melhor!

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